sábado, 20 de setembro de 2014

Hora de nada

Da rua do Sussurro ouvi um grito, enquanto trocava a música no celular. Coloquei na melhor playlist - em aleatório porque gosto de pequenas surpresas - mas não era possível que algum infeliz havia berrado de novo. Fui até lá assobiando uma música que estaria na próxima playlist, mas eu não assobiava bem. Sem certeza de onde saíra o som ardente, parei de frente à praça e continuei fitando a rua que agora os ventos sussurravam ao arrastar de mil e uma flores do ipê amarelo em seu centro. A rua do Sussurro era uma das travessas que davam de frente à praça. Praça do Condenado: onde os frutos eram tragados por uma coleção de insetos. No tronco velho havia uma tribo de formigas brancas, cupinzeiro no montículo de árvore. Ali eu já não podia me sentar, e não fazia questão. O ônibus atravessou num instante, e as flores foram pelos ares até onde não pude mais ver. Estava esfriando e queria voltar pra casa e tapar os ouvidos e falar com ninguém. Quem passava por ali parecia infeliz, quis lhes perguntar se gritara pouco tempo atrás, só que não me viam e nem me ouviam. Aquela senhora pisando no gramado da praça, indo atrás do cachorro que, porventura, quis fugir. Aquele senhor que, sempre sentado no banco meio quebrado, olhava as jovens moças caminhando. Aquele gato que saia pelo vão do portão e pulava de telhado a telhado e que, de vez em quando, pegava um rato. Aquela criança que ria no pra frente e pra trás do balanço torto e enferrujado da praça. E aquele vira-lata que xeretava o resto da marmita no saco de lixo que caíra da caçamba. Olhei para o céu - começava a anoitecer. Desliguei-me da música e vi que faltavam vinte para as seis. Uma pomba esmagada enfeitava o asfalto e o sangue pintado pelas rodas do ônibus que passara há pouco numa indelicadeza comum. Aquilo escorria pelas patas rachadas na mais enlouquecedora lenteza - me perguntei se gritara enquanto estourara as limitantes e quebrara os ossos. Eu permanecia ali, me apoiando num pedaço de metal descascado que uma vez fora um exercício pra terceira idade. A luz escura do poste pichado não mais iluminava como devia. O gato entrando pelo vão do portão não era mais gato. O vira-lata defecando a marmita na calçada do portão da senhora que o chutava não era nem mais vira-lata nem mais senhora. Passavam-se horas mas eu nem olhava pro relógio porque toda hora era hora de nada. Estrelas iluminavam os muros e uma penumbra deu-se em mim, nada além de mim. O vento gelado gemia em meus ouvidos, o brilho celeste era extraordinariamente imenso e denso... Até que outro grito perturbou a brisa - aquele grito insuportavelmente indescritível, porra! Ninguém corria ninguém eu via daqui não saia dali também não nem mais eco nem ventos que falavam o que palavras não vão! Gritou pra mim ou por mim? Cruzei os braços me apertei me liguei me entreolhei com o gato que sai e entra pelo vão do portão e pula de telhado em telhado gato com rato na boca parece espantado por quê? Não me ouve mas me vê, por quê? Pisei em merda de cachorro. Não! Alguém me chama pra que me chama? ''Você sempre esteve aqui?'' - ouvi. As paredes me incomodam.Vejo o meu nome no muro. Mas eu não fugiria. Mesmo que o grito não fosse meu.

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