lá pelas horas que anoitecem
no horário de verão
11 de dezembro
amarram um cachorro de fio bege na frente de casa
na árvore de onde moro
ipê amarelo que meu pai escolheu
às pressas
correu
atrás do caminhão
quase que levam nossa mudinha de árvore
há mais de oito anos
ora, tempo!
um vira lata magrelinho e bravo
metidão na frente da minha casa
desamarrou-se ele próprio do tronco do ipê
mas não fugiu não
deu mostras de que queria ficar ali mesmo
na frente da minha casa
na calçada
e atraiu atenção
a rua toda veio ver
com dó desse vira lata
ouvi falar de vinte pessoas
culpadas
coitadas
mal amadas
imundas
montando um bufê
e abrigo
chovia
tudo pro cachorro
tudo na frente de casa
minha casa
lar doce lar doce lar doce
ah! gente desesperada
mal atores de gente desesperada fora do teatro
convencidos de que estavam em desesperança
a gorda, o casal, a crente da frente
conhecidos desconhecidos
tudo com dó
dó do animal
não de si mesmos
a gorda jogava comida
o casal ligava pra ong
a crente mandava beijo
e eu, depois
descrente com a crente
dando ideia no vagabundo
puseram um papelão pra ele deitar
como ouviram sermão
arrastaram mais pra lá
e quem disse que o cachorro saia da frente
de casa
ainda sentado levantava orelha e mexia o rabo
apenas
há penas
dos humanos
ordinários
mas tudo isso eu só ouvi falar
quando sai de casa à tarde não tinha cachorro não
foi voltar e dar com a cara do abandonado
se eu olhasse coisa parecida
nem sei se faria mais do que pensaria
bem que mais ninguém na frente de casa tinha
olhei
pra
aqui
aí que entreolhei com o iluminado e entrei
terminada a noite
no dia seguinte
o cachorro sumiu da frente
mas há quem diga novidade
a crente o pegou e a desculpa foi:
“mais tarde cai tempestade”
certo tempo se deixou passar
e me contaram algo
soube que um homem que passava pela rua
parou de frente ao portão da crente
p o r t ã o c h e i o d e v ã o
o cachorro latiu depois
do homem bater na própria perna
cachorro atazanado
ele tirou foto do cachorro
e numa fração de segundo a rua assobiava
homem não mais se via
era ele
quem era
ele
tal episódio ainda por aqui não se encerra:
a que crê, como é descrito por aí
não queria outro vagabundo
já tinha três
talvez só por piedade e crença no perdão o tirou da tempestade
mulher de crendice em superfluidades
sente culpa e quer desculpa
de seu eu
interior expelindo deprimente pelo olhar
uma culpa a quem se dirige num
circuito do qual circunda
não entrementes, em que a finalidade percorre invariável pelo
ar
PITTY
meses depois
a de pelo preto parava os
quatro pneus da perua
no meio da rua
chamou por pitty
a que no meio da perna
ora, bolas!
tinha pinto
não mais ouvi falar do vagabundo
iluminado
[...]
certa vez vi a culhuda cheirando meu
ipê amarelo
e suas bolas atingiam a calçada da
minha casa
assinalando à ureia o revestimento de
pedras
é, a Pitty mijava como fêmea
Pitty era mulher
LILICA DELA
quando cruzava a esquina, certa vez
mirei a Lilica aspirando o asfalto
a Lilica dela levava em si uma bola também
uma só bola, das grandes
era pesada puxava pele
desgastava o cimento
balançava com força
era um tumor
Lilica morreu pouco
depois
que a velha mãe da crente
usara lenço pra enxaguar o
nariz
orando alto enquanto pedia
ajuda
de um senhor
a Lilica dela era branca
a minha Lilica já foi preta e branca
agora só lhe restam todas as cores
do arco-íris em uma singela panela
de arroz
LILICA MINHA
eu chamei:
pê
pêta
pretinha
li
lica
lilica
ela não me ouve
eu acenei:
PÊ
PÊTA
PRETINHA
LI
LICA
LILICA
ela não me
enxerga mais
talvez agora queira paz
talvez por isso tenha perdido
sentido
latido
força
perna coxa
visão
lilica não me via mais com seus olhos
oblíquos
ela me cheirava
me sentia
me via
com seu coração
e me abraçava
e me gritava
pedindo noção
de espaço e tempo
naquele mesmo quintal
que parecia tão difícil às vezes
deixar de se entalar
num vão qualquer
LILICAS VÊM
LILICAS VÃO
Lilica faz anos quase junto a mim
porque assim escolhi
porque na real eu não sei
talvez eu tenha também perdido
o sentido do tempo corrido
parei por pouco
de correr
porque a Pretinha
parou de vez
o tempo é relativo
passei a vida contando os anos
em dedos
vi que uma hora eles acabariam
me restavam três do pé direito
quando nesse 1/2 tempo
minha branquinha parou de
contar
os seus
[...]
perdi meu . de paz
AINDA TE PROCURO DENTRO DA SUA CASINHA AZUL E CINZA
LILICA?
quando esfria te espero com a sua roupinha vermelha em mãos
quando esquentava você tirava a roupa sozinha
hoje meu interior se solidifica
CADÊ VOCÊ? TÁ FRIO, LICA
SOBRE SAUDADE
quê me resta? me resta saudade
e sua roupa ainda com seu cheiro
seu cobertor rosa de bichinhos
tá tudo lá no quartinho
dobradinho
escondidinho
assim ninguém vê
ninguém fala
ninguém lembra
ninguém chora
só eu
na solidão
da noite
antes
do último
suspiro
de mais
uma
noite
toda escuridão é viva
[...]
ainda que pós-feito fique escrito:
ME DESCULPA
E EU TE AMO
ROTINA
aí ele começou:
mexer com ela
mexer nela
hm vem cá
que safadinha
sem vergonha
tá gorda, pensou.
grávida? impossível
o cara do peixe vizinho da frente e sua cadela
o caminhão de lixo entra na rua mas para logo depois da curva
pós-curva da Epiacaba
na minha rua Timbaúba
o motorista espera:
sozinho, eu saí
homem que é homem de Deus
tocava no rádio velho
sem dizer adeus
o cara do peixe nem canta
nem sabe, só assobia
é aqui mesmo ein, até o final ein
lixeiro de sotaque-não-daqui grita pro outro
tia dona Maria da escolinha
enxerida
vai abrir o portão pras pestes que chegaram de perua
une as sobrancelhas por causa do sol e procura alguém na rua
dona, que vida é essa que não esmera
cuida das pestes mas não cuida
direito
sobre os gritos e choros não sei não
lembro
fiquei três míseros dias aí
dentro
- há mais de uma década - e não quis
voltar
não sei não lembro
escola infantil família feliz
2047-9994
dona saiu com embalagem na mão
atravessou a Epiacaba encheu de cândida
na minha rua Timbaúba
na tia da limpeza
lá têm garrafas com líquidos
coloridos
quando menor eu pensava que eram
sucos
[SALVE DANI BOY]
[JUH']
PASSA A MÃO
parecia outra pessoa
até eu me virar
já dentro do carro
num dia de manhã
antes de sair pra vida
o portão foi aberto
e tardou a se fechar
eu poderia não ter ouvido sua voz
ERA NEGRO DE MOLETOM VERDE MUSGO
VEIO SOZINHO DE MOTO PAROU
NA ESQUINA ENTROU NA
MINHA GARAGEM
APONTOU
E
NÃO ME VIU DENTRO DO
CARRO
[...]
que deus esteja no seu caminho
e que você tropece no pé dele
e caia de bruços na sua vida
roubada
por falta de misericórdia
[...]
NO ÔNIBUS 5031
apertado
era pra cima
era pra baixo
tocava tecido
e pele
se via da janela
pra trás
no fundo
de esquerda
da minha esquerda
vai
volta
cima
baixo
foi
voltou
um dia no ônibus
um cara se apalpava
perto de mim
[...]
NO MEU QUARTO
tem alguma coisa lá embaixo
que eu não sei o que é
vou descer
só não sei o caminho
tem uma porta
no meio do caminho
me dê um sinal
se eu estiver indo na contramão
da sua mão
você tem costume de
trancar a porta do quarto
você não devia ter feito isso
esta noite
você
corre para a vida
e depois
corre contra a vida
É VOCÊ, LILICA?
[...]
baseado em fatos reais.