domingo, 15 de outubro de 2017

extrema

se todos os começos fizessem o sentido
se todas as narrativas cruzassem o caminho
todos os fins seriam meios, não inteiros
seriam então uma nota que de repente ecoa nos entres
uma palma que salva o silêncio
o sentido do fim

mas se eu quisesse silêncio
esse começo não faria o sentido
esse caminho seria então o meu inteiro fim

domingo, 14 de maio de 2017

são como palavras

são como palavras 
que insistem em pensar o pensamento da gente
que nem sempre quer pensar 
as palavras 
são como gente
que insiste em pensar o pensamento da gente
que nunca quer pensar
palavras como são 

sábado, 30 de julho de 2016

VOCÊ

às vezes, criança, é percebível como o mundo pode confundir
porque parece girar apenas ao redor de você
e a ideia de tudo estar dentro dele transparece
se olha às vezes não se vê
outras vezes não é o que devia ser
só vê que não há você fora de si
entretanto que não soe deprimente
porque espelho nunca mente
porque espelho não tem mente
assim como o reflexo não se veste
reveste-se assim com o que há na sua frente

quarta-feira, 8 de junho de 2016

MOLHEM

ISTO É MEU
ISTO É MINHA AÇÃO
Quem nunca ouviu a famigerada frase: toda ação do homem causa impacto (e aqui, eu me permito reconstruir a frase ao utilizar uma nova palavra que não apenas divida e some, mas que responsabilize todos os gêneros dos quais a sociedade transforma estas definições em produtos da atividade humana, como na divisão sexual do trabalho, por licença poética ou preferencialmente porque eu vejo necessidade). Minha palavra é MOLHEM, uma junção de mulher e homem. Sinônimo de ser humano. Vide qualidade, ou talvez a falha dela, na sua definição.
Então, a frase vai mudar. TODA AÇÃO DE MOLHEM CAUSA IMPACTO. O resto se encontra nos dicionários da língua portuguesa. 
No entanto, tem algo que falta nos dicionários, mas que pode ser olhado por qualquer ser vivo e pode ser visto (até PREvisto!) apenas por molhens, pois nos diferenciamos dos animais pelo alto desenvolvimento do nosso telencéfalo e pela presença dos polegares opositores. É o impacto de cada ação.

MOLHENS transformaram as (nossas?) peças da Grande Explosão (Big Bang, sabe?) em uma imagem imensa. Essa imagem ultrapassou o que já foi um limite do conhecimento terrestre e se desenvolve cada vez mais. MOLHENS QUEREM MAIS A CADA VEZ. Nunca é de mais. O impacto causado pode ser batido por outro e outro. 

A experiência molhem da natureza

toda AÇÃO de molhem causa IMPACTO
todo NASCIMENTO de molhem causa MORTE, pois somos mortais
                                                                                       todo início tem um fim
toda EXPERIÊNCIA de molhem causa CONHECIMENTO, pois somos corpo e mente
todo MOVIMENTO de molhem causa MUDANÇA, pois não somos hoje o que fomos ontem
                                                                                            crescemos amadurecemos envelhecemos
todo ESCOLHA de molhem causa SENTIMENTO, pois somos previsíveis e sensíveis
toda EXCESSO de molhem causa ESCASSEZ, pois somos ricos e somos pobres
                                                                                    temos e não temos
toda AFIRMAÇÃO de molhem causa NEGAÇÃO, pois não somos iguais
                                                                                                todo oposto que atinge seu ponto extremo contém seu inverso
[...]
                                                                        
mas tudo isso, desde que seja fora da sua casa. se por sua casa você entender CAIXA. e se por caixa você entender VOCÊ E SEUS PERFIS, seja qual deles for real (lá) e quais deles sejam virtuais (aqui).

ainda não havia despertado para o fato de que tinha o direito de existir? 
LÁ, CAUSE O IMPACTO
AQUI, IMPACTE A CAUSA


Sob o mesmo ponto de vista, a frase poderia ser reescrita trocando homem por ser humano, mas como a questão aqui é impactar a causa, entre esses dois, prefiro o de maior colapso (que é a passagem de um estado para o outro. nisto, apenas o colapso começa e termina em si. o reagente do colapso tem que ir pra outro estado)

devemos dar mais atenção aos impactos que provocamos do que às ações que realizamos 
E ISTO

ISTO É MEU IMPACTO

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

CACHORRO NA FRENTE DE CASA

lá pelas horas que anoitecem 
no horário de verão
11 de dezembro
amarram um cachorro de fio bege na frente de casa 
na árvore de onde moro
ipê amarelo que meu pai escolheu
                                       às pressas                                 correu atrás do caminhão
                                      quase que levam nossa mudinha de árvore
                                      há mais de oito anos
                                      ora, tempo!
um vira lata magrelinho e bravo
metidão na frente da minha casa
desamarrou-se ele próprio do tronco do ipê
mas não fugiu não
deu mostras de que queria ficar ali mesmo
na frente da minha casa
na calçada
e atraiu atenção
a rua toda veio ver
com dó desse vira lata
ouvi falar de vinte pessoas
                            culpadas
                            coitadas
                            mal amadas 
                            imundas
                         
montando um bufê
e abrigo
 chovia 
tudo pro cachorro
tudo na frente de casa
minha casa
lar doce lar doce lar doce
ah! gente desesperada
mal atores de gente desesperada fora do teatro
convencidos de que estavam em desesperança 
a gorda, o casal, a crente da frente
conhecidos desconhecidos
tudo com dó 
dó do animal
não de si mesmos  
a gorda jogava comida
o casal ligava pra ong
a crente mandava beijo

e eu, depois
descrente com a crente
dando ideia no vagabundo

puseram um papelão pra ele deitar
como ouviram sermão
arrastaram mais pra lá
e quem disse que o cachorro saia da frente
                                                      de casa
ainda sentado levantava orelha e mexia o rabo
                     apenas
há penas                                        
dos humanos 
ordinários

mas tudo isso eu só ouvi falar
quando sai de casa à tarde não tinha cachorro não
foi voltar e dar com a cara do abandonado
se eu olhasse coisa parecida
nem sei se faria mais do que pensaria
bem que mais ninguém na frente de casa tinha
olhei                                                        pra                                                                                                                    aqui
aí que entreolhei com o iluminado e entrei

terminada a noite
no dia seguinte
o cachorro sumiu da frente
mas há quem diga novidade
a crente o pegou e a desculpa foi:
“mais tarde cai tempestade”

certo tempo se deixou passar 
e me contaram algo
soube que um homem que passava pela rua 
parou de frente ao portão da crente 
p o r t ã o c h e i o d e v ã o
o cachorro latiu depois 
do homem bater na própria perna
cachorro atazanado 
ele tirou foto do cachorro
e numa fração de segundo a rua assobiava
homem não mais se via 

era ele
quem era
ele

tal episódio ainda por aqui não se encerra: 
a que crê, como é descrito por aí
não queria outro vagabundo 
já tinha três 
talvez só por piedade e crença no perdão o tirou da tempestade 
mulher de crendice em superfluidades 
sente culpa e quer desculpa

de seu eu interior expelindo deprimente pelo olhar
uma culpa a quem se dirige num circuito do qual circunda 
não entrementes, em que a finalidade percorre invariável pelo ar
PITTY

meses depois
a de pelo preto parava os 
quatro pneus da perua 
no meio da rua

chamou por pitty
a que no meio da perna
ora, bolas!
tinha pinto

não mais ouvi falar do vagabundo iluminado
[...]

certa vez vi a culhuda cheirando meu ipê amarelo
e suas bolas atingiam a calçada da minha casa
assinalando à ureia o revestimento de pedras
é, a Pitty mijava como fêmea   
Pitty era mulher

LILICA DELA 

quando cruzava a esquina, certa vez
mirei a Lilica aspirando o asfalto
a Lilica dela levava em si uma bola também
uma só bola, das grandes
era pesada puxava pele
desgastava o cimento
balançava com força
era um tumor
                                                                                                                                                              Lilica morreu pouco depois
 que a velha mãe da crente
 usara lenço pra enxaguar o nariz  
 orando alto enquanto pedia ajuda
de um senhor
a Lilica dela era branca
a minha Lilica já foi preta e branca
agora só lhe restam todas as cores 
do arco-íris em uma singela panela
de arroz

LILICA MINHA 

eu chamei:
pê
pêta
pretinha
li
lica
lilica
ela não me ouve
eu acenei:
PÊ 
PÊTA
PRETINHA
LI
LICA
LILICA 
                                                                                                                                                                 ela não me enxerga mais



talvez agora queira paz
talvez por isso tenha perdido 
sentido 
latido
força
perna coxa
visão
lilica não me via mais com seus olhos oblíquos 
ela me cheirava
me sentia
me via
com seu coração
e me abraçava
e me gritava
pedindo noção
de espaço e tempo
naquele mesmo quintal
que parecia tão difícil às vezes
deixar de se entalar 
num vão qualquer
LILICAS VÊM 
LILICAS VÃO

Lilica faz anos quase junto a mim
porque assim escolhi
porque na real eu não sei 
talvez eu tenha também perdido
o sentido do tempo corrido
parei por pouco
de correr
porque a Pretinha 
parou de vez
o tempo é relativo
passei a vida contando os anos
em dedos
vi que uma hora eles acabariam
me restavam três do pé direito
quando nesse 1/2 tempo
minha branquinha parou de contar 
os seus
[...]
perdi meu . de paz



AINDA TE PROCURO DENTRO DA SUA CASINHA AZUL E CINZA
LILICA?

quando esfria te espero com a sua roupinha vermelha em mãos
quando esquentava você tirava a roupa sozinha
hoje meu interior se solidifica 
CADÊ VOCÊ? TÁ FRIO, LICA

SOBRE SAUDADE

quê me resta? me resta saudade
e sua roupa ainda com seu cheiro 
seu cobertor rosa de bichinhos
tá tudo lá no quartinho 
dobradinho
escondidinho
assim ninguém vê
ninguém fala
ninguém lembra
ninguém chora
só eu
na solidão 
da noite
antes
do último
suspiro
de mais 
uma
noite

toda escuridão é viva
[...]
ainda que pós-feito fique escrito:
ME DESCULPA
E EU TE AMO

ROTINA

aí ele começou: 
 mexer com ela
 mexer nela
hm vem cá 
que safadinha 
sem vergonha 
tá gorda, pensou. 
grávida? impossível
o cara do peixe vizinho da frente e sua cadela
o caminhão de lixo entra na rua mas para logo depois da curva
pós-curva da Epiacaba 
na minha rua Timbaúba
o motorista espera: 

sozinho, eu saí
homem que é homem de Deus
tocava no rádio velho
sem dizer adeus
o cara do peixe nem canta
nem sabe, só assobia

é aqui mesmo ein, até o final ein
lixeiro de sotaque-não-daqui grita pro outro

tia dona Maria da escolinha
enxerida 
vai abrir o portão pras pestes que chegaram de perua
une as sobrancelhas por causa do sol e procura alguém na rua
dona, que vida é essa que não esmera
cuida das pestes mas não cuida direito
sobre os gritos e choros não sei não lembro
fiquei três míseros dias aí dentro 
- há mais de uma década - e não quis voltar
não sei não lembro
escola infantil família feliz
2047-9994
dona saiu com embalagem na mão
atravessou a Epiacaba encheu de cândida
na minha rua Timbaúba
na tia da limpeza
lá têm garrafas com líquidos coloridos
quando menor eu pensava que eram sucos

[SALVE DANI BOY]
[JUH']

PASSA A MÃO 

parecia outra pessoa
até eu me virar 
já dentro do carro
num dia de manhã
antes de sair pra vida
o portão foi aberto 
e tardou a se fechar
eu poderia não ter ouvido sua voz
ERA NEGRO DE MOLETOM VERDE MUSGO
VEIO SOZINHO DE MOTO PAROU
NA ESQUINA ENTROU NA
MINHA GARAGEM
 APONTOU
E 
NÃO ME VIU DENTRO DO
CARRO
[...]
que deus esteja no seu caminho
e que você tropece no pé dele
e caia de bruços na sua vida
roubada
por falta de misericórdia 
[...]

NO ÔNIBUS 5031                         

apertado
era pra cima 
era pra baixo
tocava tecido
e pele
se via da janela
pra trás
no fundo
de esquerda
da minha esquerda
vai 
volta
cima
baixo
foi 
voltou
um dia no ônibus 
um cara se apalpava 
perto de mim
[...]
NO MEU QUARTO 

tem alguma coisa lá embaixo 
que eu não sei o que é  
vou descer
só não sei o caminho
tem uma porta
no meio do caminho

me dê um sinal 
se eu estiver indo na contramão 
da sua mão

você tem costume de 
trancar a porta do quarto
você não devia ter feito isso
esta noite


você 
corre para a vida 
e depois
corre contra a vida


É VOCÊ, LILICA?
[...]



baseado em fatos reais.